Por Luis NassafUm bom levantamento da folha sobre o conflito “Alimentos x Energia”, com entrevistas com especialistas internacionais e nacionais. Clique aqui
Chamo a atenção para alguns pontos da entrevista:
1. Ele acredita na maior eficiência da agroenergia brasileira, que ele chama de segunda geração.
2. Ora, a vitória da agricultura brasileira é a vitória da agricultura tropical. Fica óbvio que para quem pensa o mundo sem viés geopolítico (que é como Parmentier se apresenta), a saída natural seria estimular essa agricultura tropical, que ajudaria a aplacar a fome do mundo e a tirar as regiões da miséria.
3. Em vez disso, ele passa a defender o fechamento agrícola dos países, voltando aos tempos do pós-guerra. Como assim? Seu argumento é que o Brasil é eficiente mas não conseguiu resolver a fome do seu povo. Ora, o problema nosso é de renda, não de produção.
4. Ao se colocar contra os “comerciantes” da OMC, no fundo ele se coloca a favor do fechamento dos mercados, da volta da auto-suficiência alimentar, em um momento em que a agricultura tropical pode dar o salto.
A química na agricultura
O esgotamento dos recursos naturais faz com que a revolução agrícola dos anos 1960, que usa muita terra, água e energia, não possa ser levada adiante num período de escassez. A química já deu à agricultura tudo o que podia no século 20, com os fertilizantes, os fungicidas, os inseticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou poluindo o solo e as águas. Em matéria agrícola, o século da química está chegando ao fim e é preciso deslanchar o da biologia.
O aumento de consumo
A elevação acelerada do nível de vida em países asiáticos industrializados provocou um enriquecimento dos hábitos alimentares, com a passagem para uma alimentação à base de produtos animais -carne na China e derivados do leite na Índia. (...) .
Ele afeta a agricultura duplamente: por um lado porque a revolução tecnológica precedente era altamente consumidora de energia. Em segundo, porque se passou a exigir da agricultura que ela preencha os pratos e os tanques dos automóveis.
O FMI e a cultura de alimentos
Destruímos sistematicamente todos os programas de apoio à agricultura produtora de alimentos em todo o mundo. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional chegaram a impor esse desengajamento como condição para a concessão de sua ajuda aos países endividados, incentivando-os apenas a produzir culturas industriais que lhes permitiriam obter nos mercados internacionais divisas para saldarem suas dívidas.
O tamanho da crise
O Banco Mundial admitiu que se engana há 20 anos e que precisa fazer uma revisão completa de suas políticas para, a partir de agora, privilegiar o desenvolvimento da pequena agricultura alimentar. Isso pode produzir resultados, mas apenas dentro de vários anos -pelo menos entre cinco e dez.
Os biocombustíveis
Para mim, até hoje o único impacto real e comprovado é o dos biocombustíveis norte-americanos à base de milho, que desde o início de 2007 provocaram um verdadeiro choque no México, quando o preço da tortilha teve um aumento de 50%.
Mas, se continuarmos com essa política insensata de queimar cereais ou oleaginosos em nossos motores, esse erro inicial dos agrocombustíveis de primeira geração vai de fato converter-se em crime.
O álcool brasileiro
Existe uma diferença essencial: no Brasil vocês já estão de certo modo nos biocombustíveis de segunda geração, ou seja, feitos a partir da planta inteira, a biomassa -logo, não a partir do grão. Me parece que vocês estão indicando o caminho a seguir, e, é claro, sua produtividade é bem melhor que a nossa. Em contrapartida, observo que o Brasil, grande país agrícola, fortemente exportador, não consegue alimentar corretamente sua própria população.
O acordo de Doha
O fato de a responsabilidade pela agricultura e a alimentação mundial ter sido tirada da FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura) para ser confiada a uma assembléia de comerciantes, a OMC, é um erro histórico. Esta crise nos permite ver muito bem que os comerciantes são totalmente incapazes de resolver o problema da fome no mundo. Acreditar que comerciantes vão levar a povoados no fim do mundo produtos agrícolas que pesam muito, que apodrecem facilmente, para dá-los a pessoas que não têm dinheiro, é uma fraude intelectual.
(...) É preciso reavaliar por completo a organização da agricultura mundial. Não há nada mais urgente que fechar as fronteiras, e organizar, nos países que têm fome, a mesma política que deu certo nos grandes países povoados que conseguiram se alimentar, como Estados Unidos, Europa e China: fechar as fronteiras para proteger sua agricultura e dar apoio maciço a seu desenvolvimento. Mas isso não deve preocupar o Brasil: ele ainda terá por muito tempo compradores para seus produtos, pois vamos viver um período prolongado de penúria.
Por Cida Medeiros
Para colaborar com a reflexão fundamental, o site Ipsnews traz inúmeras iniciativas pelo mundo para olhar a questão do alimento (agricultura) como interligada com esforços em várias esferas da vida. Traz também a publicação Agricultura & Developement, produzido pelo International Assessment of Agricultural Science and Technology for Development (IAASTD) com estudos na mesma direção. Clique aqui.



odas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos colóquios, Julieta."